Para falar sobre o polêmico assunto das comemorações do Dia das Mães na escola, convidamos uma mamãe muito especial da Pirlimpimpim. Fernanda que além de exercer a Maternidade com muito afeto e reflexão, também acompanha crianças e famílias no dia a dia como professora de educação especial e conhece o assunto pelos dois lados – mãe e educadora.

Convidamos as escolas e as famílias a repensarem práticas como esta, que pareciam incontestáveis no ambiente da educação infantil. Entendemos que esta é uma função fundamental dos ambientes educacionais, rever seus princípios e reavaliar suas certezas, pois se pretendemos formar cidadãos críticos e capazes de se deixar afetar pelas dores dos outros, devemos servir de modelo.

Agradecemos de coração a você Fernanda pela disponibilidade e parceria!

Feliz dia das Mães!

 

Sabemos que existem inúmeros tipos de configurações familiares, além do tradicional modelo mãe, pai e irmãos: pais divorciados que fazem guarda compartilhada, crianças que são criadas apenas pela mãe, crianças que moram com o pai, com os avós ou tios, crianças que tem duas mães, dois pais, que vivem em instituições e por aí vai. Mas todo ano, nessa época, o assunto volta à tona. E então, as escolas devem ou não promover homenagens no dia das mães e no dia dos pais?

Muitas vezes essa  bem intencionada homenagem acaba causando uma situação bastante dolorosa para algumas crianças. Para ajudar a pensar sobre essa questão, parto do princípio que a escola deve primeiramente ser pensada para as crianças. É um espaço coletivo, onde nossos filhos tem a oportunidade de se desenvolver convivendo com outras crianças, cada uma com um jeitinho e uma cultura familiar diferente.

O que pode ser mais rico do que descobrir outras formas de pensar, de brincar, de sentir? Aprender a respeitar as diferenças, cultivar o cuidado consigo e com os outros. Quando a escola promove essas homenagens, focadas na mãe ou no pai, exclui aqueles alunos que por diferentes circunstâncias não tem esse modelo presente. E não importa se é “só” um aluno da escola. É uma criança, que já tem que lidar com essa falta e terá a ferida exposta, sem ter ainda muitos recursos internos para lidar com isso. 

É claro que como mãe (e pai), é emocionante, incrível e envaidecedor ver aquele serzinho que nos é tão único e especial, cantar uma música falando do enorme amor que ele sente pela gente (deve ser, nunca vivi! rs) Mas se fizermos um exercício de empatia e pensarmos que toda essa função pode causar sofrimento em uma criança, que é tão única e especial quanto nosso filho, ainda vale à pena?

Tenho visto adultos reclamando, sentindo-se punidos por não receber homenagem na escola dos filhos. Dizem que a escola deve trabalhar com as crianças que não se enquadram nesse modelo tradicional outra maneira de lidar com a data, convidando um parente para ocupar o papel da mãe na homenagem, por exemplo. Dizem que as crianças estão mimadas e  precisam aprender enfrentar as frustrações.

Colocam o desejo de ser homenageado acima dos sentimentos de uma criança. Quem não está sabendo lidar com a frustração?Penso que cada família, em casa, deve decidir como vai comemorar essas datas. A escola é um espaço coletivo. É local sim de valorizar e respeitar a família e quem cuida dos pequenos. Mas isso é completamente diferente de comemorar dia das mães e dos pais. Muitas instituições já adotaram o “dia da família” ou “dia de quem cuida de mim”. É uma saída muito mais inclusiva, que promove reflexão.

Afinal, que valores queremos passar para nossas crianças?

 

Fernanda Lantz – Mãe do Bernardo e do Vicente e Professora de Educação Especial