Por Graziela Botton

Quando o assunto é chupeta algumas dúvidas angustiam os pais: permitir o uso ou não? Ela realmente traz prejuízos ao crescimento dos dentes? Quando tirá-la? Como fazer isso sem traumatizar a criança?

Na tentativa de deixar papais e mamães menos aflitos, alguns aspectos serão abordados, para esclarecer a relação da sucção com o desenvolvimento do bebê, quando ela pode se tornar um hábito indesejado, quais os possíveis efeitos prejudiciais e dicas de como eliminá-lo, respeitando o desenvolvimento da criança.

O reflexo da sucção aparece no bebê na décima oitava semana de vida intrauterina e quando o bebê nasce, é fundamental para a sua alimentação e sobrevivência. A sucção também esta relacionada ao desenvolvimento psicológico, através dela que o bebê vai descarregar energia e tensão, é uma fonte de prazer e segurança.

Durante o aleitamento materno, com a sucção do seio, o bebê recebe não somente sua nutrição, mas também desenvolve seu sentimento de bem estar. É importante destacar que com o aleitamento natural, a criança demora mais para fazer a “ordenha”, conseguindo satisfazer as duas necessidades. Já com a mamadeira o processo é mais rápido, ainda mais se o furo do bico for aumentado, muitas vezes satisfazendo a nutrição, mas não a necessidade psicológica. A sucção como hábito tem uma relação direta com sucção por tempo insuficiente. Por isso é importante que o bebê mame a livre demanda. Vários estudos que avaliaram a relação do aleitamento natural ou artificial, com o uso da chupeta apontaram diferenças significativas na presença do hábito, confirmando que as crianças que mamam por menos tempo no seio materno apresentam mais o hábito de sucção de chupeta, além de observarem mais alterações na posição dos dentes e no crescimento das estruturas bucofaciais relacionadas.

Em situações que notamos o bebê inseguro, com sono ou tristeza, agitado mesmo após mamar, essa irritação poderá ser amenizada com a chupeta. O hábito se instalará como resultado da repetição do ato, sendo muito frequente ou por tempo prolongado, tornando-se automático e inconsciente.

Para evitar a instalação do hábito, o importante é “saber usar” a chupeta. Usá-la com cautela, quando houver necessidade, minimizando os efeitos indesejáveis. É importante perceber o que o bebê está tentando transmitir quando chora e atender a essa necessidade. Lembrando que “CHUPETA NÃO É ROLHA” e que devemos evitar oferecê-la por qualquer inquietação, primeiro devemos tentar distrair a criança ou acalmá-la.

Para ajudar, algumas dicas relevantes: quando a criança estiver com a chupeta e notamos que já está calma, distraída ou adormeceu, devemos retirá-la de maneira suave. O seu acesso deve ser dificultado, evitando deixá-la ao alcance da criança ou amarrada com correntinhas, não associá-la a paninhos (os “cheirinhos”), ter apenas uma e não várias ou em lugares diferentes.

Uma dúvida frequente é quanto ao “melhor modelo” de chupeta, vale salientar que, tanto a ortodôntica como a comum (redonda) podem trazer alterações nos arcos dentais e na musculatura bucofacial da criança, a diferença entre elas está na gravidade dos danos causados. A presença da chupeta faz com que a língua fique em posição inadequada e, em alguns casos, está associada à interposição lingual na fala ou deglutição atípica e até mesmo com a respiração bucal.

A severidade dos prejuízos aos dentes e estruturas bucofaciais adjacentes, depende dos seguintes fatores: DURAÇÃO (tempo de atividade), FREQUÊNCIA (quantas vezes por dia), INTENSIDADE (grau de atividade muscular durante a atividade), além da posição da chupeta na boca, idade do término do hábito e do padrão do crescimento (fatores genéticos). Vale lembrar que sucção da chupeta em torno de 4 a 6 horas diárias já é suficiente para induzir uma movimentação dentária.

Outra questão frequente é: devo oferece a chupeta para evitar o hábito de sugar o dedo? A resposta é NÃO. Não faz sentido introduzir um hábito prejudicial para evitar outro. Quando já percebemos a sucção do dedo, devemos sim, trocar com delicadeza, o dedo pela chupeta. Pois nota-se maior facilidade na hora de remoção do hábito. Estudos apontam pequena percentagem de crianças que sugam o dedo, quando comparadas à chupeta, mas no caso do dedo, persistem por mais tempo com este hábito.

Quanto à retirada da chupeta, a primeira oportunidade ocorre por volta dos 7 meses, principalmente para as crianças que foram bem estimuladas com a sucção através da amamentação. Nessa época aparecem os primeiros dentinhos e inicia o amadurecimento das estruturas neuromusculares relacionadas à mastigação, assim o reflexo da sucção começa a ser desnecessário. Em torno dos 18 meses, com o amadurecimento do sistema mastigatório, já não haverá mais necessidade da sução da chupeta. Alerta! Ótima época para quem ainda não iniciou a retirada do hábito. Quando as alterações dentárias e de estruturas bucofaciais adjacente são discretas, há grandes chances de uma “autocorreção” com a remoção do hábito até os 3 ou 4 anos, idade limite para remoção do hábito.

É importante observar que, o quanto antes for iniciada a remoção da chupeta, maior a chance de sucesso. Vale salientar que cabe ao profissional, o papel de advertência e instrução, mas o papel ativo está com os pais, os responsáveis pelo reforço positivo no dia a dia.

Quando há envolvimento psicológico acentuado associado ao hábito, alterações na fala ou alterações na postura da língua, que são algumas consequências do hábito intenso ou por tempo prolongado, pode ser necessária uma ação conjunta entre profissionais de diferentes áreas (psicólogos, fonoaudiólogos, odontopediatras e ortodontistas). Nos casos de persistência do hábito, com crianças maiores de 4 anos, aproveitamos a maturidade delas nesta época, como aliada. A conscientização e aprovação do método pela criança mostra maior chance de sucesso.

Orientamos sempre o emprego de uma linguagem positiva, metas e recompensas. Métodos punitivos ou agressivos são sempre contraindicados. A eliminação do hábito não deve ser de forma abrupta, sob pena de levar a traumas ou conduzir a outro hábito. É importante sempre lembrar que independentemente da técnica usada para remoção do hábito, os aspectos individuais da criança devem ser respeitados.

Graziela Botton é Odontopediatra, formada e mestranda pela UFSM.